Caros amigos, queridos alunos,
Espero que tenhais passado boas férias e que estejais
recuperados dos esforços despendidos na ajuda ao Dojo TenChi.
Após a correspondência que trocámos para a organização dos
trinta anos do Dojo TenChi, pensei que seria simpático continuar a
escrever-vos, em francês e em português, a fim de vos dar novas do
Dojo e isto uma vez por mês. Será também uma oportunidade para
partilhar convosco reflexões sobre as nossas práticas.
Quero ainda agradecer aos que me escreveram em resposta à
minha última carta. Responder-lhes-ei pessoalmente ou através dos
meus textos.
O Dojo é como as Belas Artes. Nele se cultiva a beleza. Deve
ser um lugar de cultura, um lugar espiritual de encontro. Não um
lugar para privilegiados nem uma ferramenta de alienação. As
reflexões são sobretudo um apelo a mais vida, a mais consciência, a
mais ser, a maior felicidade.
Se nos limitarmos apenas à técnica e aos títulos, passamos ao
lado da Via e estagnamos. O mero estudo da técnica, sem
consciência, pode arrastar-nos para a violência onde o ego será rei.
Teríamos então praticantes, quais robots, que passam ao lado da
vida. Como frequentemente digo, alguns praticam o «Kaku no Budo»,
a prática unicamente corporal como um fim em si, em que o controlo
do corpo físico e da vitalidade é tudo. São livres de escolher. Mas este
tipo de prática é também um grande obstáculo que trava ou muito
simplesmente por ignorância obscurece os objectivos mais elevados
do Budo (Ku no Budo).
Para que haja vida, é preciso que em tudo haja diferença. Cada
ser humano tem a sua singularidade, é pois único. Cada um dos seus
instantes é único, incessantemente renovado, portanto sempre novo!
A reflexão desta minha mensagem incidirá ainda uma vez mais
sobre o estudo do movimento.
Digo-vos muitas vezes: «Será que vedes o movimento?» As
respostas são diversas. Uns não têm os olhos da experiência. O olho
experiente é sempre o reflexo da alma e do coração, que gostam de
olhar o invisível. Quando o movimento for capaz de, na acção do
gesto, transmitir o invisível, então, o movimento torna-se mensagem,
palavra, silêncio. Os velhos mestres na Arte do Movimento (e não
apenas do Budo), através do seu olhar, são capazes de sentir, de ver,
de exprimir este saber que lhes permite olhar o que o invisível lhes
transmitiu. Mas tal acontece apenas se aquele que o habita merece
este conhecimento.
Muito poucos são os que entendem que o movimento está ali. E
isto é válido na dança, na música, na pintura.
Cada praticante que trabalha seriamente pode utilizar a beleza
do movimento que em si transporta no que sente.
Movimento de vida.
Movimento luz.
Movimento invisível.
Eis uma maneira de oferecer o seu gesto.
Dojo TenChi, Sintra, 9 de Setembro de 2008
Georges Stobbaerts

